Política & Governança Climática

Coleta seletiva como política climática: guia propõe transformar resíduos em estratégia de descarbonização e inclusão

Coleta seletiva como política climática – guia propõe transformar resíduos em estratégia de descarbonização e inclusão
Foto: Tarcisio Schnaider/Getty Images

Durante muito tempo, o lixo foi tratado pelas cidades apenas como um problema de limpeza urbana: algo que precisava ser recolhido, transportado e escondido em aterros cada vez mais distantes dos centros urbanos. 

Nos últimos anos, porém, a crise climática tornou impossível ignorar que aterros, lixões e descartes irregulares são fonte de emissões e de pressão sobre ecossistemas. Além disso, a economia circular ganhou tração como modelo econômico, com metas crescentes de reciclagem e conteúdo reciclado nas embalagens. Assim, os resíduos sólidos passaram a atravessar discussões sobre emissões, uso de recursos naturais, desenvolvimento econômico e inclusão social.

Nesse contexto, o “Guia Prático da Coleta Seletiva para Prefeituras e Cooperativas: Menos Aterros, Mais Inclusão”, lançado pela Tetra Pak e pela Rede Sul, propõe caminhos transformar a coleta seletiva em ferramenta de política climática e desenvolvimento territorial. Voltado a gestores públicos e cooperativas de catadores, o documento reúne orientações práticas para estruturar sistemas de coleta seletiva, fortalecer cooperativas e ampliar a circularidade de materiais nas cidades brasileiras.

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O guia parte do conceito de “limites planetários” – indicadores científicos que funcionam como sinais vitais do planeta, do equilíbrio climático ao uso da água doce – para situar a gestão de resíduos no debate climático.

De acordo com o documento, para a gestão municipal, os limites planetários podem ser lidos como um painel de risco sistêmico que ajuda a traduzir “crise ambiental” em consequências urbanas concretas. 

Na prática, escolhas aparentemente operacionais (como organizar a coleta seletiva, combater descartes irregulares ou incluir cooperativas na gestão de resíduos) têm impacto direto sobre a resiliência urbana e sobre a capacidade das cidades de enfrentar eventos climáticos extremos.

O texto também chama atenção para a relação entre o atual modelo de consumo e a chamada “tríplice crise planetária”, formada pelas mudanças climáticas, pela perda de biodiversidade e pela poluição. Segundo o levantamento, cerca de 45% das emissões globais de gases de efeito estufa estão ligadas à forma como materiais – como cimento, aço, alumínio, plásticos e alimentos – são produzidos e usados, e não apenas à energia consumida. Resíduos orgânicos enviados a aterros e lixões, por exemplo, geram metano, gás de efeito estufa com impacto muito superior ao dióxido de carbono no curto prazo.

Como alternativa a esse modelo linear baseado em “extrair, produzir, consumir e descartar”, a economia circular propõe que materiais como plástico, vidro, papel e metais deixem de ser tratados como resíduos sem valor e passem a permanecer em circulação pelo maior tempo possível, por meio de reuso, reciclagem e recuperação. Para os autores, essa transição pode funcionar como “via rápida de descarbonização”, reduzindo emissões e diminuindo a pressão sobre recursos naturais.

Esse potencial, porém, esbarra em fragilidades estruturais no cenário brasileiro:

Grande parte da reciclagem brasileira depende do trabalho de catadores e catadoras de materiais recicláveis. Estimativas reunidas pelo documento indicam que o país tenha entre 400 mil e 800 mil catadores atuando em diferentes etapas da cadeia de reciclagem.

O documento descreve esses trabalhadores como um “exército invisível” que sustenta boa parte da circularidade já existente nas cidades brasileiras, muitas vezes em condições precárias e sem reconhecimento proporcional ao serviço ambiental prestado.

A escala do trabalho informal chama a atenção. De acordo com o guia, 73,7% dos municípios brasileiros registram a presença de catadores informais em seus territórios e apenas 27% possuem cooperativas ou associações participando oficialmente da coleta seletiva. Para os autores, esse cenário evidencia que a economia circular brasileira já possui uma infraestrutura humana em funcionamento – ainda que marcada por informalidade, baixa remuneração e pouca integração às políticas públicas.

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A partir dessa análise, o guia defende que cooperativas deixem de ser vistas apenas como iniciativas sociais e passem a ser reconhecidas como “infraestrutura humana da circularidade”.  Na prática, isso significa integrá-las à gestão municipal de resíduos por meio de contratos formais, remuneração estável, centrais de triagem bem equipadas e participação nos sistemas de logística reversa.

O guia também detalha um passo a passo para municípios que desejam estruturar sistemas de coleta seletiva mais eficientes. Entre as recomendações estão: 

  • Criação de rotas estáveis de coleta; 
  • Instalação de pontos de entrega voluntária;
  • Fortalecimento de cooperativas; 
  • Campanhas permanentes de educação ambiental; 
  • Adoção de indicadores de monitoramento para medir desempenho e recuperação de materiais.

Apesar dos desafios estruturais, experiências em diferentes regiões do país já mostram que é possível transformar resíduos em política climática, geração de renda e desenvolvimento urbano – cada uma a partir de um ângulo diferente.

  • Em Florianópolis (SC), a combinação entre coleta seletiva estruturada, educação ambiental e metas de “lixo zero” permitiu ao município reaproveitar cerca de 25 mil toneladas de materiais em 2024, entre recicláveis secos, resíduos orgânicos e resíduos verdes. A cidade também investe em programas de compostagem e em iniciativas como o Escola Lixo Zero, voltado à conscientização ambiental.
  • Telêmaco Borba (PR) mostra o impacto de profissionalizar cooperativas. Uma parceria entre a prefeitura, empresas privadas e organizações especializadas estruturou um programa de fortalecimento da cooperativa ReciclaTB, que ampliou a renda média mensal dos cooperados de cerca de R$ 1,2 mil para mais de R$ 3,5 mil. O município também implantou o “Protocolo do Vidro”, que desviou mais de 350 toneladas do material dos aterros e ampliou o faturamento das cooperativas participantes. Outra iniciativa local, a Feira do Bem, conecta gestão de resíduos e segurança alimentar ao permitir que moradores troquem recicláveis por alimentos da agricultura familiar.
  • Bertioga (SP) passou a contratar cooperativas como prestadoras formais de serviço público de coleta seletiva, com remuneração mensal estável e fiscalização pelo Tribunal de Contas, um modelo que dá previsibilidade financeira aos trabalhadores e segurança jurídica à prefeitura.

Ao longo do texto, o guia reforça a ideia de que resíduos sólidos deixaram de ser apenas um desafio operacional das cidades. Em um cenário de emergência climática e pressão crescente sobre recursos naturais, organizar materiais e ampliar a circularidade passa a fazer parte da estratégia de desenvolvimento urbano, adaptação climática e geração de renda local.

O guia completo, com diagnósticos, dados e orientações práticas para prefeituras e cooperativas, está disponível aqui.