Estudo revela que fundações destinaram US$ 6 bilhões a iniciativas de mitigação climática em 2024, 30% a mais que no ano anterior. Entre os recursos direcionados a um único país ou região, cerca de 70% foram para os Estados Unidos e a Europa
A filantropia voltada ao enfrentamento das mudanças climáticas nunca movimentou tanto recurso quanto agora.
De acordo com a sexta edição do relatório Funding Trends 2026: Climate change mitigation philanthropy, da ClimateWorks Foundation (uma das principais referências globais sobre financiamento filantrópico para o clima), em 2024, fundações e indivíduos destinaram entre US$ 11,7 bilhões e US$ 18,4 bilhões a iniciativas de mitigação climática, cerca de 30% a mais que no ano anterior. O valor corresponde a 2,1% de toda a filantropia global – essa, aliás, foi a primeira vez que essa participação superou os 2%.
Dentro desse universo, os recursos provenientes de fundações chegaram a US$ 6 bilhões, também 30% acima do registrado em 2023 e mais que o dobro do volume de 2020, quando somaram US$ 2,3 bilhões.
O relatório acompanha tanto os recursos destinados diretamente a setores capazes de reduzir emissões de gases de efeito estufa quanto o apoio a estratégias que ajudam essas transformações a acontecer – como pesquisa, engajamento público e atuação junto a empresas e formuladores de políticas.
Segundo o documento, em 2024, a eletricidade limpa liderou entre os setores, com US$ 840 milhões, enquanto Alimentos e Agricultura foi a área que mais cresceu, com alta de 63%. Entre as estratégias, o engajamento público recebeu o maior volume de recursos, US$ 900 milhões, e as abordagens centradas nas pessoas foram as que mais avançaram.
Mas o crescimento do volume e das frentes apoiadas não veio acompanhado de uma distribuição geográfica mais equilibrada.
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O mapa do dinheiro da filantropia
Parte do financiamento de fundações apoiou iniciativas globais ou desenvolvidas em várias regiões. Porém, entre os recursos destinados especificamente a um país ou região, cerca de 70% foram para os Estados Unidos e a Europa. Essa concentração aumentou 10% em relação a 2023.


Em entrevista publicada pela ClimateWorks junto ao lançamento do estudo, Surabi Menon, vice-presidente de Global Insights & Action da fundação, destacou que comunidades na África, na Ásia e na América Latina vêm adotando soluções climáticas como caminho direto para economias resilientes e vidas melhores. No entanto, o financiamento filantrópico ainda não acompanha esse movimento na mesma proporção.
Parte da explicação está na própria forma de operação das fundações. Muitos financiadores têm pouca capacidade para realizar processos de due diligence em regiões que conhecem menos e encontram dificuldades para identificar potenciais organizações beneficiárias. Além disso, restrições impostas pelos conselhos, custos de compliance internacional e receios sobre a capacidade de absorção de aportes maiores também dificultam as doações transfronteiriças.
Para romper esse ciclo, a ClimateWorks recomenda direcionar mais recursos ao Sul Global, investir em intermediários e parceiros locais e apoiar iniciativas lideradas nos próprios territórios. O relatório também defende financiamento de longo prazo para fortalecer a capacidade institucional das organizações.
Surabi cita as Regional Climate Foundations como exemplo dessa infraestrutura. Essas fundações combinam conhecimento do contexto regional, relações com atores locais e capacidade para formular e executar estratégias, ajudando os recursos a chegar mais perto de quem já atua nos territórios.
O próximo desafio
Para a ClimateWorks, ampliar o volume de recursos já não basta. O relatório defende que a filantropia também precisa financiar soluções que melhorem a vida das pessoas e fortaleçam as economias, aproximando a ação climática da geração de empregos, do desenvolvimento e da resiliência.
Outra prioridade é tornar o apoio mais flexível e duradouro. Hoje, o financiamento restrito a projetos ainda predomina, enquanto recursos plurianuais e com maior liberdade de uso permitem que as organizações se estruturem, enfrentem períodos de instabilidade e respondam a novas oportunidades.
A conclusão é que o recorde de 2024 mostra que a filantropia climática ganhou escala. O desafio agora é fazer com que esse crescimento se traduza em uma distribuição menos concentrada, em apoios mais flexíveis e em recursos mais próximos de quem já desenvolve soluções nos territórios.
→ O relatório “Funding Trends 2026: Climate change mitigation philanthropy” está disponível na íntegra, em inglês, aqui.
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