Pedalada climática percorre o Cerrado para complementar os dados de sensoriamento remoto com medições em campo e histórias de quem vive no território
Imagens de satélite revelam onde o Cerrado perdeu vegetação nativa e quais áreas foram convertidas em pastagem. Porém, elas não revelam quando uma estrada pública foi bloqueada por uma fazenda, quando um rio desapareceu ou quando moradores passaram a consumir água acumulada onde antes corria um curso d’água.
Essa é uma das provocações que o pesquisador Paulo Moutinho, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM), costuma fazer ao falar sobre monitoramento ambiental. Para ele, os satélites revolucionaram a forma de acompanhar as transformações do território, mas nem sempre conseguem responder à pergunta mais importante: o que essas mudanças significam para quem vive ali?
Para descobrir isso, é preciso conversar com essas pessoas e colocar os dados em diálogo com o conhecimento de quem vive no território. É justamente essa a proposta do TransCerrado, expedição científica liderada pelo IPAM que percorre o Cerrado de bicicleta.
Durante as viagens, a equipe confronta as informações obtidas por satélite com observações de campo e relatos de moradores. Entre os materiais utilizados estão os mapas do MapBiomas, rede colaborativa que monitora as transformações na cobertura e no uso da terra no Brasil por meio de imagens de satélite.
“Essa conversa revela um MapBiomas que você não tem a chance de revelar se não fizer esse trabalho de campo”, afirmou Paulo,durante o MapBiomas User Summit, evento realizado em julho, em São Paulo.
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Muito além das imagens de satélite
O embrião do TransCerrado surgiu em 2017, quando Paulo e outros dois ciclistas percorreram 1.100 quilômetros pelo trecho não asfaltado da Rodovia Transamazônica fazendo medições e entrevistas para chamar a atenção para os problemas socioambientais da região.
Dois anos depois, o projeto voltou-se para o Cerrado, bioma em que o IPAM desenvolve pesquisas e participa da produção de dados do MapBiomas, especialmente sobre mudanças na cobertura do solo e ocorrência de fogo.
A primeira edição do TransCerrado percorreu mais de 700 quilômetros em Goiás, discutindo conservação e agricultura sustentável. Desde então, as expedições passaram a investigar diferentes transformações do bioma. A ideia é complementar as informações obtidas por satélite com aquilo que só pode ser observado – e ouvido – em campo.
A escolha da bicicleta, aliás, faz parte dessa estratégia. Caminhar permitiria uma observação detalhada, mas limitaria muito as distâncias percorridas. Um carro, por sua vez, dificilmente atravessa estradas secundárias, e também cria uma barreira entre pesquisadores e moradores. A bicicleta permite percorrer centenas de quilômetros “pelo meio” do território e favorece a aproximação com as comunidades.
“Quando você chega de bicicleta, a comunidade se abre. É diferente de chegar em uma caminhonete. A impressão pode ser: ‘Lá vem o patrão de novo’. De bicicleta, você encontra um acolhimento muito legal e as coisas começam a aparecer”, conta Paulo.
Por que pedalar pelo Cerrado?

O Cerrado ocupa cerca de 24% do território brasileiro e é considerado a savana mais biodiversa do mundo. Nele, vivem aproximadamente 5% das espécies do planeta e nascem rios que alimentam oito das 12 regiões hidrográficas brasileiras. O bioma também é território de cerca de 25 milhões de pessoas, entre povos indígenas, comunidades quilombolas, agricultores e moradores de cidades de diferentes portes.
Ao mesmo tempo, aproximadamente metade de sua vegetação nativa já foi convertida para outros usos. A expansão da agricultura e da pecuária, a recorrência das queimadas e as mudanças no clima alteram paisagens, cursos d’água e modos de vida. Ainda assim, o Cerrado costuma receber menos atenção pública do que outros biomas brasileiros. Percorrê-lo de bicicleta é uma forma de tornar visíveis tanto sua riqueza quanto as transformações que avançam sobre o território.
Nas diferentes expedições, as bicicletas são transformadas em pequenas plataformas de pesquisa. Os participantes utilizam sensores para medir fumaça e temperatura, registram aves, animais atropelados e espécies ameaçadas de extinção e, depois, alimentam diferentes bases de dados científicos com essas informações.
Ao longo do percurso, uma parte importante do trabalho acontece para além da pedalada. Os pesquisadores levam mapas produzidos pelo MapBiomas para escolas, comunidades quilombolas, povos tradicionais, agricultores, gestores públicos e moradores. As imagens servem como ponto de partida para discutir as mudanças na paisagem, comparar os dados científicos com a percepção das comunidades e compreender como essas transformações afetam o cotidiano de quem vive no Cerrado.
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O que as expedições TransCerrado já revelaram

Em uma das expedições, os pesquisadores atravessaram uma paisagem de aproximadamente 4 milhões de hectares, dos quais cerca de 1 milhão já haviam sido convertidos em pastagem. Ao percorrer o território, encontraram grandes extensões de capim e praticamente nenhum boi. A discrepância levou a equipe a levantar questões relacionadas à especulação imobiliária, grilagem de terras e ocupação improdutiva de grandes propriedades.
Nessa mesma viagem, a equipe pedalou 80 quilômetros por estradas internas, evitando trechos de asfalto. Ao final do percurso, encontrou parte da estrada bloqueada por uma fazenda. Segundo Paulo, propriedades rurais vêm se apropriando de estradas municipais e estaduais em Goiás e impedindo a passagem.
A água também se tornou um dos principais temas das expedições. A partir dos dados do MapBiomas Água, a equipe passou a percorrer regiões em que rios e outros corpos hídricos vêm encolhendo ou desaparecendo. Uma das viagens acompanhou o Rio do Peixe, em Goiás, que registrou redução de 65% na disponibilidade de água desde 1994.
Mais do que documentar a perda do rio, os pesquisadores encontraram comunidades lidando diretamente com suas consequências. Em alguns locais, moradores relataram que passaram meses utilizando água da chuva acumulada em áreas onde antes existia o leito do rio.
Essas observações ajudam a interpretar um processo que os dados nacionais já mostram em grande escala. Segundo o MapBiomas, o Cerrado perdeu 40,5 milhões de hectares de vegetação nativa entre 1985 e 2024, enquanto 47,9% do bioma já são ocupados por usos antrópicos, como agricultura, pecuária e áreas urbanizadas.
Ou seja, enquanto os números dimensionam a velocidade da transformação, a expedição ajuda a revelar o que ela representa na prática.
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A expedição TransCerrado de 2026
No dia 4 de agosto teve início a expedição TransCerrado de 2026. Ao longo dos próximos dias, oito “ciclistas cientistas” vão pedalar aproximadamente 300 quilômetros entre o norte de Goiás e o Tocantins. O trajeto inclui os municípios de Posse, São Domingos, Guarani de Goiás, o Parque Estadual de Terra Ronca e Taguatinga. Ao longo do caminho, a equipe atravessará áreas protegidas, visitará comunidades tradicionais e conhecerá iniciativas de conservação e desenvolvimento sustentável.
O time reúne pesquisadores do IPAM, atletas e especialistas com diferentes experiências. Há profissionais ligados à ecologia, ao geoprocessamento, à saúde animal, à navegação, ao ultraciclismo, à comunicação e à economia agrícola. A expedição também conta com apoio mecânico especializado. Essa diversidade permite combinar diferentes formas de observar a paisagem e interpretar as transformações encontradas pelo caminho.
O grande objetivo da expedição TransCerrado 2026 é investigar como o El Niño, o calor extremo, a seca, a fumaça, as queimadas e o avanço da fronteira agropecuária estão transformando o bioma e afetando as comunidades locais. A expectativa é que essas histórias também contribuam para ampliar o debate sobre adaptação climática e conservação durante a COP31.
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