Essa frase, do livro Hope in the Dark: The Untold History of People Power, de Rebecca Solnit, é um bom ponto de partida para deixar claro o intuito deste texto.
Não defendemos o otimismo cego, que usa lentes cor de rosa para ignorar os problemas, enquanto apenas se “espera” que as coisas melhorem. Queremos falar sobre a esperança como um ato de resistência. Sobre a esperança que não paralisa, nem serve como justificativa para aguardar passivamente; a esperança que impulsiona mudanças.
No contexto da crise climática, essa abordagem ganha cada vez mais força. Um número crescente de pensadores, ativistas e movimentos estão adotando a esperança como ferramenta para transformar a realidade.
O hopepunk, conceito que tem o potencial de ajudar a revolucionar a comunicação climática, caminha junto com ela.
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Mas antes: o perigo do falso otimismo
Em um artigo que chama a atenção para a necessidade urgente de se adotar estratégias de adaptação e resiliência diante dos impactos climáticos, o filósofo e ativista climático Rupert Read fala que “o falso otimismo nos impede de levar a adaptação à crise/policrise climática suficientemente a sério porque evoca a falsa impressão de que as coisas ainda podem ficar, no futuro, mais ou menos bem”.
Na visão do filósofo, isso é o que está por trás de promessas de descarbonização não cumpridas, por exemplo. Rupert defende que o movimento climático precisa abandonar o “otimismo” irreal para priorizar adaptação, resiliência e preparação coletiva diante dos impactos climáticos já inevitáveis.
Ou seja, não dá mais para falar em estratégias para lidar com a crise climática sem levar em conta os desafios reais que já estamos enfrentando. E muito menos adotar o discurso de que isso se resolverá “na próxima geração”.
A esperança em relação ao clima deve estar ancorada na realidade atual (com um entendimento claro das ameaças e riscos) e ser sustentada pela convicção de que mudanças efetivas, com a participação ativa de todos, podem construir um futuro melhor.
Essa, aliás, é a ideia central do hopepunk: um movimento que defende a esperança como um ato político e subversivo – especialmente quando tudo ao redor convida ao cinismo. No hopepunk, não importa se o copo está meio cheio ou meio vazio, o importante é que há água no copo e que ela merece ser preservada.
O que é hopepunk

O termo hopepunk foi criado pela escritora de fantasia Alexandra Rowland. Em 2017, ela publicou a seguinte frase no Tumblr: “O oposto do grimdark é o hopepunk. Passe adiante”.
O hopepunk nasceu como conceito literário, mas rapidamente extrapolou esse nicho. Hoje, pode ser melhor descrito como um movimento cultural que se manifesta em várias áreas. Segundo Alexandra, em vez de negar o sofrimento, o hopepunk insiste que, apesar dele, a compaixão ainda é importante.
“O hopepunk diz que gentileza e delicadeza não são sinônimos de fraqueza, e que neste mundo de cinismo brutal e niilismo, ser gentil é um ato político. Um ato de rebeldia”, destaca.
A autora explica que no contexto hopepunk a esperança é uma escolha ativa, não um estado emocional passivo. O “punk” adicionado à esperança traz à tona a revolução e a ação coletiva. Não se trata de uma saga heróica, onde um indivíduo vai nos salvar, mas de uma luta coletiva.
“A ação individual é quase sempre inútil. A esperança e a força vêm dos nossos laços uns com os outros, das ações que tomamos como comunidade, de mãos dadas no escuro”, ressalta.
Outro movimento literário punk que traz a esperança como base (e que também nasceu no Tumblr) é o solarpunk, que aposta em futuros regenerativos, tornados possíveis pela eliminação dos combustíveis fósseis em favor da energia solar e do design inspirado na natureza.
No Brasil, existem alguns gêneros relacionados e inspirados pelo solarpunk, como:
- Afrofuturismo brasileiro, que reimagina futuros a partir da diáspora africana e das culturas negras do país.
- Amazofuturismo, que coloca os povos indígenas e o bioma amazônico como espinha dorsal de uma visão de futuro.
- Sertãopunk, que imagina o Nordeste brasileiro como um polo de avanço cultural, tecnológico e político.
Esses movimentos compartilham com o hopepunk a convicção fundamental de que o futuro pode ser melhor.
No entanto, o hopepunk não apenas imagina futuros possíveis, ele reforça a convicção de que a crise atual pode ser resolvida, especialmente se agirmos coletivamente – e agora.
Hopepunk: conhecimento como ferramenta de transformação
Na comunicação climática, existe uma tendência à adoção de tom catastrófico, que foca excessivamente nos desastres e nas possibilidades trágicas dessa crise. Ao mesmo tempo, também há um problema de narrativas superficiais, que tratam efeitos diretos das mudanças climáticas como eventos isolados ou “normais”.
Ambas as abordagens geram inação – seja porque as pessoas sentem que não há nada que possa ser feito (pessimismo total), ou porque têm a impressão de que está tudo bem ou de que as mudanças climáticas não são tão graves assim (falso otimismo; negacionismo).
Esses, aliás, são fatores já estudados pelo especialista em Psicologia Ambiental Robert Gifford. O pesquisador da Universidade de Victoria, no Canadá, mapeou as principais barreiras psicológicas que impedem que as pessoas ajam em relação às mudanças climáticas, o que ele chama de “Dragões da Inação“. Entre os principais, destacam-se:
- Fatalismo: a visão de que nada que se faça individualmente importa.
- Entorpecimento: causado pela repetição exaustiva das mesmas mensagens catastróficas sobre a crise.
- Otimismo passivo: a crença de que a tecnologia ou o tempo resolverão o problema sem exigir ação.
- Negação ativa: a rejeição da própria existência ou da gravidade da crise.
O que acontece em muitos casos é que a comunicação climática acaba alimentando esses dragões, em vez de combatê-los. O hopepunk pode ajudar a reenquadrar a crise climática, comunicando os problemas sem diminuí-los, apontando caminhos reais e possíveis para mudar a realidade.
Uma das maneiras pelas quais é possível comunicar a crise climática de forma mais hopepunk é trazendo informações mais claras e contextualizadas.
No Brasil, esse conhecimento existe em silos e em uma linguagem que não consegue comunicar efetivamente o impacto real na infraestrutura dos municípios e na vida dos cidadãos. Isso, por sua vez, impede que se tenha uma visão real sobre a crise – tanto em relação à urgência da ação, quanto às possibilidades concretas de adaptação e de construção de cenários melhores.
Dicas para uma comunicação climática hopepunk
A comunicação hopepunk atreve-se a questionar o cenário atual e ousa apontar novos possíveis caminhos.
Estas são algumas formas de usar essa abordagem na comunicação climática, com foco em melhorar o acesso ao conhecimento e impulsionar transformações efetivas rumo à adaptação:
#1 Mostre os problemas, mas aponte soluções
A comunicação climática excessivamente baseada no medo pode gerar apatia, negação e sensação de impotência. Embora narrativas de emergência às vezes mobilizem ações rápidas, a repetição constante de mensagens negativas perde eficácia ao longo do tempo e pode afastar o público.
Esperança e foco em soluções tornam as pessoas mais propensas a agir, apoiar políticas climáticas e incentivar outras pessoas a se engajarem.
Isso não significa que se deve ignorar a gravidade da crise climática, mas sim equilibrar os alertas com exemplos concretos de soluções, benefícios coletivos e possibilidades reais de mudanças.
#2 Reforce a importância das ações coletivas
A ênfase da ação coletiva do hopepunk ajuda a combater o dragão do fatalismo – a sensação de que agir sozinho não adianta nada. Ao tratar a crise climática como um problema de todos, aumenta-se a chance de ação efetiva, já que as normas sociais estão entre as alavancas mais eficazes entre as intervenções comportamentais para gerar mudança em larga escala.
As pessoas tendem a colaborar mais quando acreditam que os outros também estão colaborando. Por outro lado, a impressão de desinteresse coletivo pode gerar passividade, desânimo político e sensação de isolamento.
Uma ressalva importante: salientar a responsabilidade coletiva não significa isentar responsáveis, mas comunicar que essa é uma questão que afeta a todos – reforçando, assim, a importância do engajamento em conjunto (inclusive para cobrar tais responsáveis).
#3 Não foque apenas no futuro, traga o cenário atual e passado à tona
Um dos erros mais comuns da comunicação climática é falar sobre as ações necessárias como algo a ser realizado no futuro. Isso cria a falsa sensação de que podemos esperar para agir. É fundamental que a narrativa da crise traga informações claras sobre como ela já está afetando o presente. O objetivo, novamente, não é apenas alarmar, mas mostrar os impactos reais.
Aliado a isso, é importante mostrar o cenário atual em comparação com o passado, indicando o que nos trouxe até aqui. Um estudo feito no EUA, por exemplo, demonstrou que as atitudes e comportamentos pró-ambientais de pessoas do partido conservador melhoraram drasticamente quando as mensagens comparavam o ambiente atual com o do passado, em vez de comparar o presente com projeções futuras.
Ou seja, mostrar os impactos da crise climática não como uma possibilidade futura, mas como algo que já está acontecendo – e que pode ser visto e percebido na prática – é uma maneira de transformar espectadores em participantes ativos.
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