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Da cobertura pontual de desastres à pauta permanente: os desafios do jornalismo climático local

Enchentes, alagamentos, ondas de calor e surtos de arboviroses aparecem com frequência na cobertura jornalística. São fenômenos que podem ser agravados pelas mudanças climáticas, embora sua ocorrência e seus impactos também dependam de fatores como ocupação do solo, infraestrutura urbana, desigualdade social e políticas públicas.

Muitas vezes, porém, esses acontecimentos são noticiados de forma isolada. Falta relacionar o episódio imediato às tendências climáticas, às vulnerabilidades do território, às decisões que ampliam ou reduzem riscos e às respostas já adotadas para enfrentar o problema.

Para contribuir com uma cobertura mais contínua e contextualizada, criamos a Rede de Jornalismo doClima. A iniciativa conecta jornalismo, dados e tecnologia para apoiar veículos locais na produção de conteúdos relacionados à realidade de cada território.

O projeto busca ajudar os cidadãos a compreender como as mudanças climáticas afetam suas vidas e oferecer informações que qualifiquem o debate público sobre prevenção e adaptação.

O lançamento da Rede ocorreu em 16 de setembro, durante o webinar O clima em pauta no jornalismo local. O encontro reuniu especialistas em comunicação e governança climática e jornalistas de três veículos locais, que apresentaram os primeiros projetos desenvolvidos pela Rede.

Uma das questões centrais do debate foi a necessidade de tratar o clima como uma pauta transversal, para além das editorias de meio ambiente e da cobertura cotidiana da previsão do tempo.

João Guilherme Brotto

Falar de mudanças climáticas envolve questões ambientais, mas também economia, saúde, infraestrutura, educação, habitação, mobilidade e esporte.

Para João Guilherme Brotto, cofundador da doClima, restringir o tema aos aspectos ambientais faz com que uma parte importante da história deixe de ser contada. “A partir do momento em que trazemos o clima para essas diferentes pautas, conseguimos expandir a consciência e deixar mais claro para a população e para os leitores o que de fato está acontecendo”, afirmou.

Mostrar essas conexões ajuda o público a compreender a dimensão da crise climática e a acompanhar as respostas do poder público aos riscos e impactos que atingem o território.

Camila Godinho, especialista em governança e ação climática, reforçou esse ponto durante o webinar. “Precisamos tirar o clima da pauta exclusivamente ambiental. Ele precisa estar no centro das decisões econômicas e da gestão pública”, disse.

Rosiane Correia de Freitas

No Plural, veículo de Curitiba (PR) que cobre principalmente a política local, a questão climática surge de forma natural em muitas pautas. Rosiane Correia de Freitas, que representou o jornal no webinar, ilustrou esse posicionamento lembrando de uma pauta específica, relacionada ao modelo de fornecimento da merenda escolar da capital paranaense. Segundo ela, as merendas são produzidas em Araucária, na região metropolitana, e transportadas diariamente para cerca de 400 escolas, em operações que podem ocorrer até quatro vezes por dia. “É um desperdício de tempo, dinheiro e combustível. Mesmo que não seja uma pauta especificamente de meio ambiente, trazemos essa leitura”, contou.

Camila Godinho

Camila usou o exemplo para mostrar como decisões administrativas e orçamentárias podem ter consequências climáticas. “Quem decide, por exemplo, se haverá um programa de compra de alimentos de agricultores familiares no entorno das escolas, evitando deslocamentos? Essas são escolhas públicas. A mudança climática é uma discussão sobre dinheiro, sobre como investimos esse dinheiro, quais são as prioridades e quem está fazendo essa escolha”, afirmou.

Inclusive, examinar a relação entre clima e diferentes áreas da gestão pública permite investigar a lógica e os interesses por trás dessas escolhas. É nesse trabalho de apuração e tradução que a comunicação e o jornalismo climático podem contribuir. “Não é somente a população que precisa estar bem informada, mas os gestores públicos também. Se você tem a população mais consciente, cobrando, você muda essa cultura na gestão pública, porque as escolhas vão ser diferentes”, destacou Camila.

Para ela, esse processo exige uma comunicação acessível, que explique os conceitos sem depender de linguagem excessivamente técnica. “As pessoas sentem o que está acontecendo com o clima no dia a dia delas”, lembrou. Ao jornalismo local cabe conectar essa experiência às evidências e às decisões que moldam o território.

Redações enxutas, dificuldade de acesso a informações públicas e falta de formação para interpretar dados climáticos estão entre as barreiras enfrentadas por veículos locais que tentam acompanhar o tema de forma contextualizada.

Afonso Ribas

Afonso Ribas, do Conquista Repórter, veículo de Vitória da Conquista (BA) que atua na interseção entre jornalismo e direitos humanos, contou que a equipe optou inicialmente por não criar uma cobertura ambiental específica, por entender que não tinha estrutura para realizá-la com qualidade.

Ainda assim, a agenda apareceu em outras editorias. “Quando acontecia algum evento climático extremo, como uma enchente, ou quando chuvas fortes causavam estragos nas estradas da zona rural ou afetavam pessoas de bairros periféricos, isso acabava se impondo por conta própria”, relatou.

O Portal Gerais, veículo sediado em Divinópolis (MG) que cobre cerca de 50 municípios, onde vivem aproximadamente 1,2 milhão de pessoas, tem uma experiência semelhante. 

Amanda Quintiliano

Amanda Quintiliano contou que, com uma equipe reduzida, a cobertura climática fica vinculada à editoria “Gerais” e, na maior parte do tempo, concentra-se em episódios específicos, como alagamentos e ondas de calor ou de frio. “Às vezes, a partir de um fato, tentamos desenvolver uma pauta mais abrangente, ouvindo algum especialista. Mas esbarramos na falta de dados. Como não temos qualificação em jornalismo de dados, ficamos presos às instituições. Demandamos e, às vezes, o retorno não vem no tempo que a pauta exige. Aí acabamos abandonando a pauta”, disse.

Rosiane também mencionou a dificuldade de articular legislação, dados e execução das políticas públicas. “O mais difícil, às vezes, é conseguir traduzir isso sem alienar o leitor, porque são questões extremamente complexas”, destacou.

Trabalhar com dados demanda tempo, ferramentas e conhecimentos que nem sempre estão disponíveis nas redações locais. “Chegar às fontes, fazer a raspagem, a coleta desses dados, montar uma visualização… tudo isso é muito difícil para uma redação pequena que está no interior, onde o acesso a recursos já é escasso”, resumiu Afonso.

A Rede de Jornalismo doClima foi criada para reduzir parte dessas barreiras. A iniciativa organiza dados climáticos sobre os municípios e os apresenta como insumos para a apuração jornalística.

Na prática:

  • Cada redação parceira recebe uma página especial com informações sobre os municípios de sua área de cobertura;
  • A página reúne indicadores de temperatura, chuva, emissões, uso e cobertura da terra, desastres registrados e riscos climáticos projetados, entre outros temas;
  • Os dados são apresentados em linguagem acessível, acompanhados de referências às fontes e de conexões com o contexto territorial.

As informações vêm de bases públicas e científicas, organizadas pela doClima em cinco dimensões. 

1) Para mostrar o que já mudou no clima de cada município, a plataforma usa o CHIRPS v3.0, com dados diários de precipitação desde 1981, e o CHIRTS-ERA5, com séries de temperaturas máxima e mínima desde 1983. As duas bases são produzidas pelo Climate Hazards Center, da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, e permitem analisar tendências ao longo de várias décadas.

2) Os riscos futuros são apresentados a partir do AdaptaBrasil MCTI, plataforma oficial do governo brasileiro que reúne indicadores de ameaça, exposição, sensibilidade e capacidade adaptativa em setores como recursos hídricos, saúde, segurança alimentar, energia, infraestrutura e biodiversidade. A base trabalha com diferentes cenários e horizontes temporais. Essas projeções ajudam no planejamento, mas não devem ser interpretadas como previsões exatas do que acontecerá em cada cidade.

3) Para analisar a contribuição de cada município para o aquecimento global, a doClima utiliza o Sistema de Estimativas de Emissões e Remoções de Gases de Efeito Estufa (SEEG), do Observatório do Clima. A base permite acompanhar as emissões por território e por setores, como energia, agropecuária, resíduos, processos industriais e mudança de uso da terra.

4) O MapBiomas mostra como o uso e a cobertura da terra se transformaram desde 1985, incluindo a perda ou recuperação de vegetação nativa, enquanto o módulo Urbano do MapBiomas detalha a expansão e as transformações das áreas urbanizadas. 

5) O Sistema Integrado de Informações sobre Desastres (S2ID) e o Atlas Digital de Desastres no Brasil reúnem registros oficiais de ocorrências reconhecidas pela Defesa Civil, como inundações, enxurradas, secas e deslizamentos, além de informações sobre pessoas afetadas e prejuízos.

Essas camadas são complementadas por dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) sobre população, saneamento, escolaridade, economia e perfil produtivo. O contexto socioeconômico é essencial para compreender por que um mesmo evento climático pode produzir impactos muito diferentes entre municípios e grupos sociais.

As bases têm períodos de referência, escalas e metodologias próprias. Por isso, os dados não são tratados como medidas diretamente equivalentes. A doClima os organiza por município, explicita as fontes e usa os cruzamentos como ponto de partida para perguntas e apurações jornalísticas. A descrição completa está disponível na página de metodologia da doClima.

“O Brasil produz uma enorme quantidade de informações capazes de apoiar centenas de pautas, mas elas ainda estão dispersas em ferramentas e sistemas complexos, muitas vezes desconhecidos por quem mais precisa delas. A Rede de Jornalismo doClima nasce para aproximar esse conhecimento científico das redações e transformá-lo em informação relevante para cada território”, afirmou João.

A infraestrutura de dados e tecnologia é compartilhada pelos três veículos e foi desenvolvida para facilitar a expansão da Rede. Com as fontes e o tratamento dos dados já estruturados, a entrada de um novo parceiro exige principalmente a adaptação da página ao território e à identidade editorial do veículo.

Ericson Nunes

“O que levaria semanas de trabalho técnico em uma redação, como chegar à fonte, raspar os dados e montar a visualização, já está pronto”, resumiu Ericson Nunes, cofundador e diretor de tecnologia da doClima.

Assim, a redação pode concentrar seus esforços no trabalho que depende do conhecimento local: contextualizar os dados, ouvir as comunidades, investigar respostas e cobrar ações do poder público.

Cada página também oferece uma ferramenta de participação cidadã. O leitor escolhe um tema e gera uma mensagem, em linguagem simples, para solicitar informações ou providências à prefeitura ou a um vereador. A ferramenta não substitui a apuração jornalística nem garante uma resposta do poder público, mas procura reduzir barreiras para o acompanhamento das políticas locais.

A Rede de Jornalismo doClima começa com três projetos-piloto desenvolvidos em parceria com veículos que atuam em contextos distintos: o Portal Gerais, no Centro-Oeste de Minas Gerais; o Conquista Repórter, no Sudoeste da Bahia; e o Plural, em Curitiba.

Em Curitiba, a proposta parte da vocação editorial do Plural: acompanhar a política e as decisões que afetam a cidade.

A capital paranaense construiu uma imagem de cidade planejada e verde. O especial confronta essa narrativa com quatro décadas de dados públicos e investiga os riscos e desafios climáticos do município.

Segundo o Atlas Digital de Desastres no Brasil, quase metade dos registros de desastres feitos em Curitiba desde 1992 concentra-se em 2023 e 2024. O inventário de emissões apresentado no painel também indica que o transporte rodoviário responde por 57% das emissões do município.

Esses números exigem contexto: o total de registros pode ser influenciado tanto pela ocorrência dos eventos quanto por mudanças nos sistemas de notificação, e um inventário de emissões retrata um período e uma metodologia específicos. Por isso, os dados funcionam como ponto de partida para novas perguntas e apurações.

No Portal Gerais, os leitores contam com uma editoria voltada ao Centro-Oeste mineiro, com informações sobre 46 municípios. Divinópolis, sede do veículo, ganhou uma reportagem especial com gráficos navegáveis, enquanto um explorador regional permite comparar indicadores entre as cidades da região.

A proposta é conectar os números a temas que já fazem parte da cobertura local. O painel apresenta o comportamento da temperatura desde 1980, o histórico de desastres, mudanças na vegetação nativa, emissões de gases de efeito estufa e projeções de risco climático até 2050.

Para Amanda, a editoria pode apoiar uma mudança na cobertura do veículo: ir além dos episódios isolados e investigar também as respostas ao problema, seus resultados, limites e aprendizados.

No Sudoeste da Bahia, o projeto parte de uma cobertura já voltada às comunidades rurais e periféricas. O especial reúne dados de 24 municípios sobre temperatura, chuva, emissões, vegetação, desastres e riscos climáticos projetados. Vitória da Conquista ganhou uma reportagem específica, acompanhada de um explorador que permite comparar os municípios da região.

Os dados já deram origem a uma nova pauta. A próxima reportagem do veículo abordará a situação da Serra do Periperi, um dos principais parques de Vitória da Conquista, relacionando a história da área à perda de vegetação nativa no município ao longo das últimas décadas. “É um dado ao qual antes não tínhamos acesso. Agora vamos conseguir contextualizar”, afirmou Afonso.

O projeto também pode ampliar a disponibilidade de informações sobre municípios menores da região, alguns deles classificados como “desertos de notícias”.

As experiências apresentadas no webinar mostram que o jornalismo climático local assume formas diferentes conforme o território e a linha editorial de cada veículo.

Em Vitória da Conquista, a pauta passa pela desigualdade e pela exposição de populações vulnerabilizadas. No Centro-Oeste de Minas Gerais, envolve uma rede regional de municípios e a investigação de respostas aos problemas climáticos. Em Curitiba, relaciona-se à política pública, ao planejamento urbano e às escolhas que moldam a cidade.

O ponto comum é a necessidade de conectar dados, território e vida cotidiana.

Esse é o propósito da Rede de Jornalismo doClima: apoiar veículos locais na construção de uma cobertura contínua, acessível, crítica e conectada às realidades de seus municípios. Os projetos iniciais mostram como essa infraestrutura pode ser adaptada à identidade editorial e às necessidades de cada redação. 

A iniciativa pretende ampliar o espaço para que o clima seja tratado como uma dimensão que atravessa as decisões tomadas nas cidades e a vida de quem vive nelas.

Para o jornalismo local, isso significa transformar dados muitas vezes dispersos ou técnicos em informação capaz de ajudar o leitor a compreender o próprio território, avaliar as respostas existentes e participar do debate sobre as decisões que definirão seu futuro.

Sua redação pode fazer parte

A doClima oferece a veículos jornalísticos parceiros acesso gratuito a dados, sugestões de pauta, gráficos, painéis e apoio editorial para fortalecer uma cobertura climática com mais contexto, evidências e continuidade.

Se você faz parte de um veículo local e quer desenvolver essa cobertura em sua região, entre em contato.

Redação

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