Entenda por que as mudanças climáticas devem fazer parte da decisão de voto e conheça a Vote pelo Clima, iniciativa que ajuda eleitores a conhecer e analisar propostas relacionadas à agenda climática
Alimentação, segurança, saúde, economia, infraestrutura, educação, trabalho, transporte, moradia. Esses são temas relevantes para a gestão pública e, consequentemente, fazem parte do discurso eleitoral.
Mas você sabe o que eles têm em comum?
Todas essas áreas são afetadas pelas mudanças climáticas.
- O aumento da frequência, intensidade e duração das ondas de calor, por exemplo, eleva os riscos à saúde, especialmente para crianças e idosos.
- As alterações no clima também afetam os padrões de cultivo, tornando as colheitas mais imprevisíveis e reduzindo a produtividade agrícola, o que pode agravar a insegurança alimentar.
- Na saúde, mudanças nas condições ambientais podem favorecer a disseminação de determinadas doenças.
- Nas cidades e regiões costeiras, a elevação do nível do mar ameaça comunidades e ecossistemas.
- Já as mudanças nos padrões e volumes de chuva, assim como no fluxo dos rios, podem comprometer o abastecimento e a qualidade da água e afetar a geração de energia hidrelétrica.
- Além disso, eventos climáticos extremos podem causar perdas materiais, danificar infraestruturas e dificultar o acesso da população a serviços básicos.
Ou seja, não há como falar em mudanças climáticas sem levar em conta seus impactos sociais e econômicos. Com o agravamento da crise global do clima, a adaptação climática passou a ocupar um espaço cada vez mais relevante no debate político e nas políticas públicas.
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Vote pelo clima: a agenda climática e a decisão de voto

Um mapeamento do Datafolha revela que nove em cada 10 brasileiros consideram que sofreram impactos das mudanças climáticas em suas vidas. Além disso, em um levantamento feito pelo Instituto Talanoa, sete em cada dez entrevistados disseram notar aumento de eventos climáticos extremos na região onde vivem.
Isso, por sua vez, está direcionando a decisão de voto dos eleitores.
Na pesquisa do Instituto Talanoa, 35% dos participantes afirmaram que com certeza votariam em candidatos com propostas claras de adaptação climática, e outros 40% disseram que provavelmente votariam.
É nesse contexto que entra a Vote pelo Clima, uma iniciativa criada pelo Instituto Clima de Política com o objetivo de ajudar os eleitores a conhecer melhor as propostas dos candidatos comprometidos com a agenda climática.

“Acreditamos que as eleições são uma grande oportunidade de provocar as mudanças que precisamos para o Brasil. Mais do que uma campanha de comunicação e uma plataforma, Vote pelo Clima é um movimento de pessoas engajadas com a melhoria da qualidade de vida no país, por meio do avanço de uma agenda política climática conectada com diferentes pautas que atravessam a vida das pessoas”, destaca Samantha Costa, Coordenadora de Comunicação do Clima de Política.
A adesão à plataforma é voluntária. Os candidatos se cadastram e assumem compromissos públicos com a agenda climática e suas diferentes intersecções sociais.
Cada candidatura pode registrar até cinco propostas de campanha relacionadas às 20 bandeiras da plataforma, que incluem temas como água e saneamento, alimentação e agricultura, economia e trabalho, educação, energia renovável, gênero e raça, meio ambiente, moradia e habitação, povos indígenas e comunidades tradicionais, redução de desastres, saúde, transparência e combate à corrupção e transporte e mobilidade.
A plataforma da Vote pelo Clima é suprapartidária e cada candidatura passa por uma avaliação que verifica quatro critérios:
- Registro válido no TSE.
- Ausência de discurso de ódio.
- Ausência de histórico de crimes ambientais.
- Adesão a quatro compromissos mínimos: defesa da democracia, enfrentamento da crise climática, proteção dos direitos humanos e da justiça climática e respeito aos limites ecológicos do planeta.
Na prática, a Vote pelo Clima funciona como um diretório de candidaturas comprometidas com a agenda climática e ambiental. Os eleitores podem fazer buscas por cargo, estado, partido, temas de interesse e bandeiras políticas, facilitando a comparação entre propostas e compromissos.
Desde sua criação, em 2020, a Vote pelo Clima já cadastrou mais de 1.700 candidaturas, das quais 190 foram eleitas.

Segundo Guilherme Tampieri, coordenador de Projetos e Programas do Clima de Política, análises em relação aos programas de governo propostos indicam que a agenda climática tem atravessado diferentes espectros políticos, não se limitando a um perfil específico de candidato ou partido.
“Identificamos que candidatos de esquerda, direita e também do centro estão trazendo a pauta climática dentro dos seus programas de governo. O que mostra que a adaptação climática, como a população tem dito, não cabe à esquerda ou à direita. Esse é um tema que diz respeito a toda a população e as candidaturas precisam responder a esse anseio popular de viver com dignidade nesse mundo em que a crise climática já é parte do cotidiano dos eleitores brasileiros”, ressalta.
Por que votar pelo clima?
De acordo com o relatório Estado do Clima, Extremos de Clima e Desastres no Brasil, do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden/MCTI), em 2025, eventos climáticos extremos afetaram 336.656 pessoas no Brasil. E os prejuízos econômicos decorrentes desses eventos chegaram a R$ 3,9 bilhões.
Ainda segundo o estudo, as chuvas responderam por 86% das mortes registradas em desastres climáticos no país. Entre 2020 e 2023, cerca de 8,7 milhões de pessoas ficaram desabrigadas ou desalojadas devido a enchentes.
Outro levantamento feito pela Confederação Nacional dos Municípios (CNM) revela que, dos 70.361 decretos de emergência ou estado de calamidade ocorridos no Brasil entre janeiro de 2013 e dezembro de 2024, 68,9% (48.478) foram por conta de secas, estiagens e excesso de chuvas.

Segundo o estudo da CNM, esses eventos climáticos têm se tornado cada vez mais intensos nos últimos anos, impactando especialmente a infraestrutura pública, os setores de agricultura e pecuária, além do setor habitacional.
No entanto, apesar da urgência do tema, as estratégias e políticas públicas em relação à adaptação climática ainda deixam a desejar.
Uma análise em relação à utilização dos recursos para gestão de riscos e desastres no Brasil mostra que, entre 2012 e 2026, o país gastou 154% a mais em resposta a desastres do que em prevenção.
A iniciativa Vote pelo Clima pode ajudar a mudar esse cenário. A ideia é que, quanto mais os eleitores estejam cientes de propostas relacionadas à agenda climática, mais o tema seja abordado pelos candidatos.
Assim, o objetivo é que, com cada vez mais propostas climáticas visíveis, o clima deixe de ser tratado como assunto pontual e passe a ser abordado de forma estratégica, com foco em adaptação e resiliência.
Evidências confirmam a eficácia econômica dessa abordagem. Um estudo da WRI Brasil revela que cada dólar investido em adaptação e resiliência climática pode gerar um retorno de mais de US$ 10,50 em benefícios ao longo de dez anos.
Ação climática: das candidaturas aos mandatos

Para que as mudanças climáticas efetivamente entrem na agenda da gestão pública, é preciso ir além das propostas dos candidatos durante a eleição. E é aí que entra a Mandatos-C, rede que reúne lideranças legislativas comprometidas com a ação climática.
A Mandatos-C, idealizada pelo Instituto Clima de Política (o mesmo por trás da plataforma Vote pelo Clima), atua em quatro frentes principais:
- Capacitação, com formação continuada para parlamentares sobre mudanças climáticas e políticas públicas;
- Apoio técnico, produzindo conhecimentos, ferramentas e subsídios para a elaboração de projetos;
- Mobilização política, estimulando a criação e aprovação de políticas relacionadas ao clima;
- E conexão entre parlamentares, aproximando mandatos de diferentes partidos, regiões e níveis de governo para promover a troca de experiências e a atuação conjunta.
Guilherme explica que o objetivo dessa rede é facilitar o trabalho dos mandatos para que eles tenham mais capacidade técnica e política de avançar na pauta climática em seus estados ou mesmo em nível da União, no caso dos deputados federais.
O coordenador do Clima de Política conta que, quando as candidaturas inscritas na Vote pelo Clima são eleitas, o Instituto entra em contato para que passem também a integrar a rede Mandatos-C.
“Hoje, temos quase 150 parlamentares que compõem essa rede. Agora, com a eleição, esperamos ampliar um pouco mais essa bancada de parlamentares climáticos, para que possamos trocar experiências e produzir insumos para a realização de políticas públicas no âmbito dos estados e da União, para que tenham mais adesão às necessidades urgentes que o nosso país tem de endereçar a crise climática”, explica.
Saiba mais: votepeloclima.org



